... porque é a incerteza que paira sobre a nossa natural existência.

A esperança permite-nos viver com a certeza de que tudo é incerto.

O entretanto é o que fazemos com a nossa vida.


Carta de Amor!

by elzasilva on Maio 11, 2007

Leonor caminha sozinha junto ao mar…Ela sabe que hoje será apenas o primeiro dia de mais um capítulo da sua vida que se fecha. Não está triste, pois vive nela a certeza que comanda a sua própria vida e as suas vontades. Mas também sabe que, a partir de agora, irá viver com a ausência do Ser que a completou por muito tempo (ela própria esqueceu o tempo!).

Ele foi, é e será sempre a liberdade, não quis ser de ninguém. Pertence ao mundo e teve vontade de guiar os seus próprios passos…

Agora, Leonor, junto ao mar, busca serenidade, escuta o silêncio e escreve:

É estranho viver assim…

E assim como ?!- pergunto eu.

Viver agarrada aos momentos, às emoções fortes e, no entanto, efémeras, vazias, que se perdem no tempo…

Hoje foi a promessa eterna. A promessa da aposta na Amizade, provavelmente na cumplicidade, mas nunca na incerteza nem na ambiguidade.

E só assim damos valor aos pormenores dos momentos. Eu acho que sentimos os dois a nostalgia de mais um momento, de uma despedida e de um novo (re) encontro, desta vez numa procura constante do significado verdadeiro e único da palavra AMIGO.

De repente sinto mágoa, raiva e até ódio…

De quem? De mim, dele ou da situação?

Não sei, é estranho…

Chego a pensar que as peças deste puzzle não estão a encaixar. Devo ter perdido alguma por aí. Não pretendo procurá-la, porque simplesmente não quero encontrá-la… E se algum dia a encontrar quero pensar que não fiz nada para a ter.

Não sei se o mistério da vida está na procura e na conquista, mas tenho quase, quase a certeza que está na paixão que depositamos em tudo o que fazemos e acreditamos…

Cá estou no final de mais um dia. Foi um dia que passou, mas não foi apenas mais um dia…Hoje as palavras foram ocas, soltas, sem intenção; hoje os gestos não foram ocasionais nem inocentes e até os sentimentos tropeçaram nesta guerra entre o tempo que vem e o momento que passou e vai…passando!

Se a criança que todos os dias desperta em mim a vontade de pular, rir, abraçar o mundo, deixar de o fazer, nesse dia as palavras, os gestos e os sentimentos terão de ser bem mais fortes do que a minha vontade. Nesse dia terei de acreditar que tu estás aí, presente ou ausente, não importa! Tens somente de estar aí…

Se não estiveres não te procurarei, nem sequer elevarei a voz para me fazer escutar. Os principais sinais da vida terás de senti-los e acreditar, simplesmente, que estão a ser dirigidos a ti.”

Leonor volta a ler o que escreveu…

Se ainda fizesse algum sentido, esta seria a sua carta de amor, com palavras simples e sentidas…para serem partilhadas!

E foi isso que fez, aproximou-se do mar e, bem devagarinho, deixou que as ondas envolvessem e levassem aquelas palavras.
 

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